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               Em “Céu”, o eletrizante primeiro capítulo da trilogia “Enigma das Fronteiras”, Ana Eduarda joga sua protagonista Daisy, junto ao espectador, em uma aventura que a permitirá conhecer o que há por trás das cortinas da humanidade ao descobrir que algumas crenças são verdadeiras, e outras não.
Conhecemos a protagonista através de seu anjo, Pedro, que funciona como uma espécie de agente guarda-costas de outra dimensão. Pedro desconfia que Daisy está em perigo e que pessoas que lhe querem bem talvez tenham outras intenções desconhecidas.
Tudo muda quando Daisy passa a enxergar seu anjo, que deveria ser invisível a qualquer humano. Apartir daí, Daisy, Pedro e outros personagens que Daisy julga saber quem são, se envolvem numa trama inter dimensional, envolvendo organizações secretas, demônios, ciência, História, perigos, e é claro, amor.

 

            Desfrute agora uma parte de um dos capítulos de “Céu”, onde Daisy, a personagem principal, acaba de voltar de uma viagem e prepara-se para retomar sua rotina diária.
Entretanto, uma grande surpresa a aguarda...

 

Visitante

                 Parecia que tinha acabado de fechar os olhos quando o despertador tocou. A viagem tão esperada acabara e dali uma hora e meia iniciava seu turno no hospital. Haviam chegado em casa no domingo à noite, Sandro seguiu direto para seu laboratório, é claro, e Daisy tinha ido dormir cedo. De olhos ainda semi-fechados, Daisy jogou as pernas para fora da cama e foi como zumbi para o banheiro. Podia sentir seu cabelo todo bagunçado, as pontas espetadas para todos os cantos como cobras de Medusa. Chuveiro urgente. Quando voltou para o quarto, já mais desperta, o choque não poderia ter sido maior. Seu coração apertou no peito, o estômago deu voltas e se retorceu. Ficou paralisada por uma fração de tempo indefinida antes do grito subir e explodir pela garganta. Balbuciou algo e voltou a gritar:
— Quem é você... SOCORRO!!
O rapaz sentado em sua cama, que parecia esperar tranquilamente, assustou-se mais do que ela. Olhou para trás à procura do alvo do pânico, sem se dar conta que era ele mesmo. Foi quando seus olhos se encontraram de verdade. Ele tinha olhos cor de infinito.
— Eu... Como? – ele olhava para trás repetidamente, como se não pudesse compreender.
Daisy grudou na parede, segurou com mais firmeza a toalha azul em volta do corpo e começou a sair do quarto, forçando suas pernas a não dobrarem. A respiração lhe faltava, não conseguia mais gritar após ter olhado nos olhos dele. Um ladrão no seu quarto, sentado na sua cama. Sabia que estava sem vizinhos. O prédio estava bem vazio ultimamente. Quem ajudaria?
— Pe-pegue o quiser e saia. Me deixe em paz — era um sussurro enquanto ela tentava sair do seu campo de visão.
— Daisy... Eu... Eu não sou ladrão... Você me vê?
Que pergunta mais ridícula.
Com um profundo impulso, inspirando todo ar que podia, forçou suas pernas a correrem. O apartamento era pequeno e a chave da porta não estava perto, o que fazer? Cozinha. Correu para lá e conseguiu trancar a porta. Podia gritar pela janela. Ela tremia dos pés a cabeça, nunca imaginara que poderia tremer daquele jeito, era insano. Girou a chave duas vezes, ofegando. Não ouviu passos, não ouviu nada.
— Vá embora! Me deixe em paz. Eu vou gritar pela janela.
Silêncio. Ela ainda olhava para a porta da cozinha, o coração desvairado. A janela estava bem atrás dela, era só virar e colocar a cabeça para fora. “Vamos garota, você consegue”.
Tudo pareceu acontecer lentamente: conforme Daisy girou os calcanhares os mesmos olhos cor de infinito a fitavam. Ele estava ali. De mãos levantadas, como se fosse um “mãos ao alto”, ele tinha um ar suplicante, indagador e era a criatura mais linda que ela já vira na sua vida.
E de repente, o mundo apagou.
Daisy acordou em seguida, deitada no chão da cozinha, com um copo de água ao seu lado. Teria sido uma alucinação?
— Daisy... Eu não sou um ladrão. Por favor, fique calma, está tudo bem.
A alucinação estava falando com ela novamente e estava sentado ao seu lado, sem a tocar, esperando calmamente.
Ela piscou lentamente. Parecia estranhamente mais calma.
Examinou-o.
Ele era tão lindo que chegava a ser irreal. Não tinha certeza de sua altura, mas era forte, tinha cabelos negros bem curtos, maxilar largo, traços fortes e perfeitos. A boca era perfeitamente desenhada e seus olhos eram indescritíveis. Eram um oceano de brilho. Um infinito de estrelas. Um céu azul. Talvez fosse isso.
— Explique isso – um sussurro novamente.
— Você ainda pode me ver?
— É a segunda vez que você pergunta a mesma coisa estúpida.
E então ele riu. Foi como uma explosão de estrelas, tal o brilho. Daisy teve a impressão de ser banhada num calor diferente, e então veio a lembrança.
— É isso! Você estava lá no hospital em Blumenau! No dia do acidente – sentou-se de supetão, ainda agarrando a toalha. – Como me encontrou e como entrou aqui?... E como se atreveu a entrar aqui desse jeito? E... Como passou... Pela porta da cozi... – sua voz foi diminuindo até sumir.
Ele ainda sorria calmamente. O sorriso era meio puxado para o lado esquerdo. Até doía de tão lindo.
— Sim, de certa forma foi isso.
— Mas depois você sumiu, não o vi mais. O que quer dizer com “de certa forma”? Será que dá para explicar de uma vez? Você está me dando nos nervos... e eu ainda estou de toalha! Falando com um invasor! No chão da minha cozinha! – levantou-se com cuidado, puxando a toalha pra cá e pra lá. Agradeceu secretamente a vendedora que lhe empurrara toalhas tamanho “king size”. – Quem diabos é você? – tentou usar o tom mais ameaçador que encontrou, embora fosse quase impossível quando olhava aquele rosto.
— Sou Peter, ou melhor, sou Pedro, seu anjo-da-guarda – ele disse isso como se fosse a coisa mais normal do mundo, “Sou Pedro, seu vizinho”.
Daisy simplesmente o encarou. Tinha vontade de gritar, de rir, de chorar. Tudo ao mesmo tempo. Isso com certeza explicava o fato do seu aparecimento na cozinha com a porta trancada, mas era só.
— Meu anjo-da-guarda, sei. E você acha que eu sou alguma espécie de débil mental?
— Não,  Daisy. Estou apenas tentando colocar as coisas em ordem.
Ela bufou, mudou o peso de uma perna para outra e resolveu.
— Olha aqui, eu vou me trocar e quando eu voltar, você vai ter sumido. E eu vou ter certeza de que tudo não passou de uma loucura. Resolvido.
Começou a puxar a maçaneta da porta da cozinha, tentando passar.
— Tem que destran...
— Eu sei! — saiu numa voz meio histérica.
— OK.
Pedro decidiu deixá-la trocar de roupa com calma e ficou esperando sentado no sofá da sala. Mil perguntas giravam em sua mente. Porque ela podia vê-lo agora? O que havia mudado? O que faria a seguir? Tinha que se comunicar com alguém, mas não podia deixá-la sozinha de novo. Teria que fazer isso à noite. Muito tempo atrás conhecera um humano que podia ver fantasmas, mas já fazia tanto tempo... Além do mais, aquele homem sabia de seu dom extraordinário e não ficara em pânico, como sua protegida agora. Desde então, nunca mais vira ninguém que pudesse ver os anjos.  O que fazer?
Resolveu seguir seus instintos, falar a verdade e tentar acalmá-la. Talvez quando ela saísse do quarto já não o visse mais, e realmente pensasse ter sido uma alucinação. Mas ela se lembrava do hospital! Ela era esperta. Esperta e linda. É claro que ele sabia que ela era linda, mas nunca tinha reparado daquele jeito, com Daisy olhando diretamente nos seus olhos era bem diferente.
A porta do quarto abriu e Daisy saiu bem devagar. Pela forma cuidadosa como se movia, ela também esperava que tudo tivesse voltado ao normal. Pedro levantou-se e notou que estava ansioso. Fazia muito tempo que não sentia isso.... será que ele gostaria que ela continuasse a enxergá-lo?
— Oi. Você ainda está aqui — foi Daisy quem quebrou o silêncio.
— Bem, não é este o problema. Eu sempre estarei por aqui. O que está diferente é que você resolveu me enxergar agora.
— OK, desisto. Vamos lá: você é uma alucinação e eu ordeno que desapareça agora!
Pedro respirou fundo, e sorriu para ela. Era o sorriso mais absurdamente bonito que ela já vira. Será que ele não poderia parar com aquilo? Era perturbador.
— Você não está colaborando — dizendo isso, Daisy jogou-se no sofá.
Daisy, olhe, eu juro a você que não sei o que está acontecendo. Juro também que estou falando a verdade, sou seu anjo-da-guarda. Olhe, você se lembrou da primeira vez que me viu, não?
— Hum.
— Aquele não era o hospital, era uma área de recuperação...
— No céu. Eu sei. Lembro do fio de prata.
— Sério? Acredita agora?
— Eu disse que lembro, não que acredito... Olha, eu sou enfermeira, você sabe disso, e já vi gente morrendo e gente voltando da morte. Muita gente já me falou do tal fio, mas eu achava tudo alucinação, coisa de gente perturbada com o choque, sei lá... lembrei desse treco agora lá no quarto. Nunca achei que fosse acontecer comigo! E agora eu estou aqui falando com você! – fechou a cara, incrédula ainda.
— Bem, é isso então, agora acho que a vida segue...
— A vida segue? Você... Como você pode estar tão calmo? Ai... Não pode só de-sa-pa-re-cer?
Aquilo doeu tão fundo em Pedro que ele sentiu algo quase físico, se fosse possível. E doeu em Daisy também no mesmo instante em que falou, pois não era bem isso que ela queria dizer. Ambos se olharam, os olhos negros de ônix dela nos olhos azuis infinitos dele, e imediatamente ela soube que queria desesperadamente que ele continuasse ali. A expressão dele era indescritível.
— Não, Pedro... Desculpe... Eu... Eu me expressei tremendamente mal, me desculpe, é que é tudo tão louco, não quero que você suma, é que eu... É que não sei... É que...
— Daisy, eu entendi, tudo bem. É doido para mim também esse lance todo.
— Esse lance? Você é um anjo que fala lance — ela sorria e salientou a última palavra.
Ele também voltou a sorrir.
— Eu falo a linguagem que tiver que falar.
— Uau, todas as línguas?
— Acho que sim.
— Se eu fosse chinesa, você falaria chinês?
— Acho que sim.
— Como assim “acho que sim”? Como era o seu... Seu... É “humano” anterior? Era homem, mulher, de que país?
— É protegido, a palavra. Você é minha primeira.
— O quê?! Eu sou uma cobaia, então? — Daisy usava agora de um tom mais divertido, quase descontraído. Aparentemente estava desculpada pela grosseria de segundos atrás.
— Sim, ainda estou terminando meu treinamento, e vou experimentando as coisas que aprendo com você — ambos riram.
— Mas isso é um absurdo! Quem é seu chefe? Preciso reclamar! Ninguém quer um novato, imagine se eu me meto em alguma encrenca, um acidente...
Silêncio. Ela já tivera um acidente a pouco tempo.
— Espere aí, foi você! Foi você quem me mandou colocar o cinto de segurança aquele dia no ônibus! Você me salvou!
— Não fui eu não... Foi seu outro anjo.
Comé qui é ? — Daisy estava cada vez mais absorvida na conversa, e sem planejarem, os dois se sentiam mais à vontade um com o outro do que jamais poderia ser possível imaginar.
— O seu anjo morreu naquele acidente, te protegendo. Daí eu o substituí, pois você me viu lá na zona de reabilitação.
— Meu Deus... Minha mãe deve ter falhado totalmente em me ensinar as coisas do céu e da terra... O meu anjo morreu? Você tá de brincadeira, não? Diz de uma vez que eu estou louca para eu me internar.
— Depois te explico isso, Daisy, melhor irmos para o hospital, você esqueceu que tem que trabalhar e já está quase uma hora atrasada.
— Nossa! É verdade! Culpa sua... Mas só me fala esse negócio do outro anjo?...
— No caminho, no caminho... Vamos.
— Hum... Chato.
Pegou sua bolsa, blusa, chaves. Saíram juntos de casa, direto para o metrô que Daisy costumava usar. No caminho, Pedro explicou que no caso de perigos letais os anjos podiam usar uma dose de energia tão forte para salvar seus protegidos, que tinham que ser socorridos eles mesmos, após o episódio. Não é que morriam, como era para os humanos, mas eles ficavam em recuperação por um tempo. E não deu mais detalhes.
— Tadinho... Que coisa mais linda... Quando puder você vai dizer a ele que eu agradeço, não? Não vai, Pedro?
— OK, mas Daisy... Estamos dentro do vagão e tem gente olhando para você, pois tecnicamente você está falando sozinha...
— Ai, é verdad... — Daisy rapidamente colocou a mão na boca, tapando seus lábios e olhando para os lados. Duas pessoas a fitavam de forma estranha e para piorar as coisas ela teve um acesso de riso. Pedro pedia que ela parasse, mas ele também não se controlava, e ria daquela forma absurdamente linda, seu riso era como música.
Ele estava sentado ao lado de Daisy, vestido calças jeans meio gastas, meio desfiadas na barra, tênis preto e branco e uma camiseta preta. Parecia um rapaz de vinte e poucos anos, sentado relaxadamente no banco, de pernas meio abertas e os braços apoiados nos joelhos, enquanto olhava para Daisy e se divertia. Pela primeira vez, ela notou que ele não tinha asas e não se conteve:
— Onde estão suas asas? — perguntou no meio dos risos. As pessoas continuavam olhando.
— Daisy... Melhor parar com isso. Vão mandar prender você.
Ela continuava rindo, tentando se controlar, suspirando fundo a fim de se concentrar. Colocou as mãos delicadamente sobre a boca, como se estivesse refletindo e sussurrou:
— Pedro, esse vai ser um longo dia... Tem tanta coisa que eu quero saber...
— Pelo jeito vamos ter bastante tempo para conversar. Vamos indo, nossa estação chegou.
— Mas, e as asas? — cochichou de novo.
— Ssh.

 

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