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A seguir, breve lançamento do terceiro e último volume da trilogia "Enigma das Fronteiras", o romance "Inferno". Aqui a trama se fecha, mostrando a origem do horrendo Dahakrift e seu plano pérfido, como Daisy, seus amigos e a CUSCON vão se defender. Além disso, outras surpresas aparecerão pelo caminho...

Desfrute um trecho:

 

Prólogo

Seth – Mitologia Egípcia – A origem do Mal

É o início dos tempos e o mundo está em formação. O que se define neste momento, será perpetuado até o final desta espécie única no Universo – o homem.
Meu nome é Seth.
Sou o segundo filho dos deuses Gheb e Nut, neto de Ra, o deus Sol.
Sou o segundo filho e por isso a coroa do cosmo me foi negada.
Sou o segundo filho e por isso permaneci nas sombras.
Mas as sombras são sábias e ninguém teve chance de descobrir isso, a não ser eu mesmo. Estudei-as e delas absorvi a grande verdade. O conhecimento mais profundo que se pode ter. Da treva absoluta, retirei o meu maior prêmio: enxergar sem a luz.
Somente eu, o segundo filho, sei o segredo.
Ali, no lugar onde ninguém queria estar, eu reuni forças, juntei a poeira da escória e a imundície do mundo. Armei um exército e parti em busca da minha vingança.
Osíris, meu irmão rei, governava o mundo ao lado de Ísis, Rainha das rainhas. Juntos tinham a pretensão de formar um planeta de luz. Não perceberam que era o caminho errado. Ambos, estúpidos em sua bondade, esqueceram-se do fato mais básico da vida: a existência dos opostos. O norte é casado com o sul, a alegria vive ao lado da tristeza, a mão direta beija a esquerda, o deus Nilo expande com as cheias e se contrai com as secas, traz a abundância ou a fome, mata a sede ou afoga. Os tolos esqueceram-se que não há brilho sem escuridão.
E por isso eu os saúdo! Aqui estou!
Persegui Osíris com meu ódio sedento. Despedacei seu corpo em quatorze partes e lancei no Nilo. Cada uma delas foi parar num lugar. Cada um desses lugares virou um templo estúpido. Fora dos templos reina a sombra de Seth, dentro deles, reina a fraca glória de Osíris. É assim que sou soberano, pois os ínfimos pontos de luz brilham fracamente, eternizando a beleza da escuridão.
Entretanto, a bruxa Ísis concebeu Hórus de seu marido morto. Quando este soube dos pedaços de seu pai espalhados pelo mundo, tornou-se feroz.
Guerreamos por oitenta anos sem parar. Lancei sobre ele todas as criaturas abomináveis que existiam. O mago negro contra o filho traído. Tentei explicar, em vão, que nada existe sem seu devido par: para Osíris existir realmente, era necessário a presença de Seth. Eu, o segundo filho. O bem e o mal.
A guerra jamais terminou e jamais terminará.
O Divino tribunal do universo sentenciou: Hórus reinaria ao norte e eu no sul. Não existe norte sem sul. Não existe cima sem baixo.
Hórus é o olho do Céu.
Eu sou o fogo do Inferno.

Parte 1Antigo Egito

1355 A.C.

Capítulo 1

Areia nos olhos.
Areia nos ouvidos.
Areia na boca.
Talvez o pequeno garoto ganhe a misericórida dos Deuses e  tenha sorte o bastante para não se lembrar da sensação de completa impotência ao sentir os grãos pontudos perfurando sua garganta, arranhando suas pupilas e reverberando nos seus tímpanos.
Ou talvez... os Deuses estejam ocupados com afazeres mais nobres e se esqueçam de olhar em direção àquela porção do Sahara. Lá, pode ser que os grãos acabem perfurando órgãos vitais da criança desafortunada, causando feridas purulentas e eternas no seu coração...

*****

—  Veja, senhor! Acabo de encontrar esse pacote no deserto!
—  Mas... Um bebê!
—  Acho que está morto, senhor.
Mesi limpou a areia do peito arranhado e auscutou.
—  Está vivo. Ainda não fez um mês, mas deve ter mamado o bastante para aguentar esse calor.
—  Teve sorte por não ter sido comido vivo. O que será que ele estava fazendo no deserto, senhor?
—  Rápido Zir! Traga uma bacia cheia de água fresca.
Mesi tinha jeito com crianças. Tivera nove filhos e perdeu sua mulher quando as crianças ainda eram pequenas. Não que ele se importasse em dar banho e deixá-los apresentáveis, mas sabia como mexer com eles. Hoje seus filhos eram homens feitos, cada um vivendo sua vida, mas Mesi não esquecera o básico: segurar a nuca e a coluna dos recém nascidos.
A água da bacia tornou-se turva logo no primeiro mergulho, além da areia, o bebê estava sujo mesmo. Ele pediu mais água e com as pontas dos dedos molhados, passou um pouco pelos lábios diminutos.
O instinto de sobrevivência era forte naquela criatura. Ele se mexeu com dificuldade e ensaiou uns gemidos. Mesi, então, mergulhou um pano na água fresca e deu para que o menino chupasse. Isso o reanimou.
Zir olhava pasmo. Tinha quinze anos e nunca tinha visto um bebê antes, assim tão de perto. Mesi continuava a ralhar com ele, pedindo agora um pouco de leite.
—  Mas, senhor. Tudo que temos é um copo, nada mais.
—  Não discuta, moleque encardido. Pegue o que tiver. E traga o mel.
—  Não tem mel, senhor.
—  Ora! Pegue o que tiver!
Mesi enrolou a criança num pano limpo, acomodou-se numa cadeira e continuou dando o pano embebido em água para que ele sugasse. Quando Zir trouxe o pouco leite que lhe restava, ele fez o mesmo com o líquido branco.
Parecia que a vida retornava num passe de mágica e o menino sacudia com mais vigor os braços e pernas. Ensaiou um choro, mas era mais importante sugar o pano. Zir misturou um pouco de cerveja no leite. Mesi fez cara feia, mas era a única coisa que tinham por ali. E se o deserto não havia levado aquela criança para o mundo dos mortos, a mistura de cerveja e leite certamente não o faria.
—  É... Realmente temos aqui um batalhador. Vai me render boas moedas de prata. Talvez de ouro!
—  Vai vender o menino, senhor?
—  O que você esperava, imprestável? Que eu fique aqui como ama de leite? Se me oferecerem um bom preço ainda vou mandar você junto! Agora vá pegar os camelos!
—  Mas fui eu quem o encontrei, senhor! Mereço uma parte do dinheiro!
—  Ora, peste do deserto! Você merece porcaria nenhuma! Não serve para nada. Espero que o Deus Seth lhe carregue para o inferno!
Zir disparou em direção aos camelos ao ouvir aquela blasfêmia. Rezaria para que a praga não lhe pegasse.
Mesmo ainda sem entender uma palavra, aquela foi a primeira vez que o bebê sugador de panos ouviu falar no Deus Seth, o soberano do ódio, inveja, guerra, desordem e do deserto.

*****

Mesi criou o garoto do deserto até que ele completasse dois anos. Teve certeza de que havia sido presenteado pelos deuses, pois o moleque havia passado pelo seu primeiro ano. Muitas crianças morriam neste período, mas o seu sobrevivera o dobro! Era um investimento de ouro.
Nem se preocupou em dar-lhe um nome. Simplesmente o chamava de “o garoto”. O negócio de transporte de camelos servia apenas para viver o dia-a-dia e seus filhos já há muito tempo haviam esquecido de lhe ajudar. Zir, agora com dezessete anos, era o único filho que lhe restava, mas permanecia tão estúpido como sempre fora. O tempo passava e Zir não amadurecia nunca, as idéias não se organizavam em sua cabeça.
Houve uma época de estiagem e Mesi perdeu alguns de seus camelos. Por isso, precisou vender o garoto por algumas moedas de bronze a um casal de comerciantes de quinquilharias. Eles precisavam de alguém com dedos finos para limpar as peças de prata e ouro que vendiam. Mas o menino era muito novo e não cumpria ordens. Quase um ano depois, Mesi aceitou-o de volta pois achava que poderia lucrar um pouco mais quando ele tivesse completado uns quatro anos. Até lá, ele poderia ir ficando junto com os cachorros.
Zir, o abobalhado de sempre, foi o único  a comemorar a volta do garoto e prometeu desta vez dar-lhe um nome. Mas Zir pensava devagar e levou alguns meses para decidir como chamá-lo.
—  Você vai ganhar um nome hoje. Eu pensei em algo nesta manhã... Mas já me esqueci... Então – anunciou com olhar vago – vou te chamar de Zir, também.
Mesi passava por perto naquele momento.
—  O quê você está fazendo?
—  Estou dando um nome pro garoto...
Mesi pensou.
—  Hum... Para quê?
—  Para podermos chamá-lo, pai.
—  Já falei para não me chamar assim, peste! Sou seu senhor, está me ouvindo?
—  Sim, senhor.
—  Idiota... – Mesi começou a ralhar com ele e no final voltou a perguntar – E qual foi o nome que você deu?
—  Zir.
Mesi sacudiu a cabeça e gargalhou. Zir jamais teria conseguido chegar em outra conclusão que não fosse aquela. Era o único nome que conhecia – o seu prórpio. Era capaz de se confundir com a própria sombra. Talvez nem o nome da cidade onde estavam lhe fosse familiar. Era um completo imbecil, afinal.
Zir, o garoto, crescia com saúde. Tinha pernas fortes e troncudas. Estatura baixa, pele bronzeada, olhos levemente puxados e muito enigmáticos. Quase não falava, mas podia-se notar que entendia perfeitamente o que lhe era pedido. Novamente, Mesi viu que era chegada a hora de vendê-lo. Agora poderia negociar melhor.
No mercado de Giza, a cidade das grandes pirâmides, comercializava-se até os próprios olhos. Se havia alguém para vender, com certeza encontraria seu par ideal para comprar. Mesi e os dois Zir’s chegaram na feira livre por volta do horário do almoço. Homens e mulheres gritavam seus produtos, sacudiam as mãos, brigavam entre si. A mistura de cheiros era terrível, pois havia comidas fumegantes misturadas ao odor dos animais e suas fezes. Vendiam cachorros, macacos, serpentes, porcos, camelos, peixes vivos e mortos, aves variadas. Havia escravos, tecidos, ornamentos, condimentos, prata, ouro, papirus, madeira, carroças, e qualquer coisa que se pudesse pensar em carregar de um lado para outro. A quantidade e variedade de grãos encontrada era incontável.
Havia também deuses de madeira, de pedra, de metal estavam esculpidos e dependurados por todos os lados: Anubis, Rá, Toth, Horus, Hathor, Isis, Chu, Geb, Ptah, e tantos outros. Estavam todos à venda.
Bustos do deus faraó Akenathon eram mais caros. Mas Nefertiti, sua maravilhosa rainha, não podia ser comprada facilmente. Era cara demais, e portanto, desejada com o mesmo fervor. Com o valor de uma Nefertiti, podia-se comprar alguns escravos.
E assim, Mesi achou um lugar apertado no centro daquele tumulto, cruzou os braços e aguardou, enquanto os dois Zir’s olhavam estupefados as pirâmides que tomavam o horizonte.
O garoto não conseguia piscar, pois o magnetismo daquelas formações o capturara para sempre. Algo dentro dele se manifestou e, mesmo ainda tão imaturo, prometeu a si mesmo que um dia conseguiria entrar e colocar suas mãos naquele local sagrado.

Continua...

 

 

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