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Desfrute agora uma parte de um 
dos capítulos de “Terra”, o segundo volume
da Trilogia Enigma das Fronteiras

 

Reunião de Cúpula

Londres, Inglaterra, Agosto de 2008
Todos o homens da sala estavam extremamente sérios e ansiosos. Aguardavam o início da reunião, mas os membros mais importantes ainda conferenciavam na ante-sala. Os preparativos para a vídeo conferência estavam concluídos e o telão mostrava o escritório neoclássico do Brasil ainda vazio. Havia um clima de aflição, pois eles sabiam que estavam prestes a testemunhar grandes acontecimentos. Os boatos deviam ter algum fundamento, afinal de contas, todos ali sabiam dos perigos que caminhavam sobre o planeta desde os mais remotos tempos.
A porta se abriu num supetão, sobressaltando a maioria. Dois dos três diretores que estavam na ante-sala entraram, bastante concentrados, enquanto a tela que mostrava o escritório do outro lado do oceano, também recebia seu participante.
Jonas Blerr limpou a garganta e iniciou a sessão anglo brasileira.
—  Está aberta nossa sessão extraordinária número cinco do ano de 2008. – Virou uma página do documento que trazia em mãos. – Companheiros, declaro neste momento, com muito entusiasmo, que a CUSCON está em guerra aberta, como há muito tempo não se via. E vocês foram chamados aqui como nossos melhores capitães. Passo a palavra para nosso insigne pesquisador e membro distinto CUSCON, Mister James Theodore Logan – disse isso apontando para o telão que exibia as mensagens além-mar.
James Theodore Logan, ou simplesmente Jimmy, era a definição da austeridade. Sua presença era imponente – era alto, grisalho, tinha uma cicatriz que mostrava suas batalhas em campo aberto, pequenos olhos azuis penetrantes que lhe davam um ar misterioso. Embora fosse inglês na sua naturalidade, ele não tinha exatamente um país para chamar de seu. Passara mais de quarenta anos viajando por todos os lugares que se possa imaginar. Seu pai, seu avô, bisavô e outros de sua família haviam servido a CUSCON desde os mais remotos tempos. Sua lealdade era cega, sua paixão inquestionável, sua voracidade em destruir ineguales era condição de sobrevivência. Havia sido batizado na sociedade secreta com treze anos, na distante Cornualha na Inglaterra, e este havia sido, sem dúvida, o momento mais importante de sua vida.
Era um homem extremamente culto. Seu conhecimento sobre diversas religiões era profundo, além de história, antropologia, sociologia e outras ciências humanas. Sua paixão era o “ser humano” simples, puro e normal. Tudo aquilo que fugia desta pureza não era considerado obra divina. Este era o lema de Jimmy e de todos os homens daquela sala – esta era a CUSCON.
Sua liderança era muito importante para a organização. Ele era um dos membros mais notáveis, que já tinha liderado, caçado e exterminado inúmeros casos. Seu pai havia se associado aos nazistas para conseguir o maior número de acessos exclusivos, pois era lei naquela época o extermínio de pessoas com alguma debilidade mental, ou que se julgasse diferente do normal, fato que tornava bem mais fácil a atividade da CUSCON. Essa era a definição dos ineguales. A família Logan, então, conseguiu penetrar mais fundo ainda na sociedade e apontar aqueles que julgavam normais ou não. Jimmy conseguira os mesmo acessos nas últimas guerras e conflitos americanos, europeus e africanos. Aproveitara-se de ditaduras como a de Ceaucescu na Romênia, Fidel Castro em Cuba, outros ditadores menores em tribos africanas, para conseguir informações e se infiltrar nessas sociedades a fim de perseguir e exterminar. Seus relacionamentos eram extremamente bem costurados e não havia empecilhos para se conseguir o que queria.
Jimmy Logan estava passando uma temporada no Brasil e tinha grandes novidades para compartilhar. Com uma velocidade incrível conseguira reunir os membros europeus: homens influentes na sociedade e no governo que formavam aquela rede secreta, financiavam ações da CUSCON assim como aproveitavam para fazer negócios importantes para seus próprios interesses. Um protegia o outro cegamente. Havia laços antigos que cruzavam gerações.
Ele respirou fundo e iniciou seu discurso, usando seu inglês britânico impecável, pausado e formal.
—  Senhores. Obrigado por atenderem a esta chamada tão urgente. Pois se há uma palavra de ordem aqui e hoje, esta palavra é a urgência. A guerra do século da CUSCON iniciou-se. Aquilo que muitos de nossos ancestrais temiam, acaba de acontecer.
Ele fazia pausas pensadas, dando corda ao suspense. Era seu grande momento e ele o saborearia de todas as formas.
—  A CUSCON, através de minha pessoa, encontrou um dos seres nefastos que sempre procuramos – todos seguraram a respiração, não havia um barulho sequer na sala. – Há aqueles que não acreditavam nele, há aqueles que fizeram pouco caso das pistas deixadas ao longo do tempo, há aqueles que debocharam, mesmo dentro da nossa organização, enfim, existem pessoas que não deram o devido crédito.
Alguns homens baixaram seus olhares, pois sabiam que Jimmy lhes falava diretamente. Jimmy era um grande estudioso e muitas vezes havia sido visto apenas como teórico. Havia uma parcela da irmandade que não reconhecia várias de suas caças e vitórias.
—  Senhores, a notícia que tenho para lhes dar é perturbadora, ao mesmo tempo que é fascinante – outra pausa. – Nós encontramos o Dahakrift!
Ao som dessas palavras todos se mexeram em suas cadeiras e murmúrios espantados borbulharam pela sala. Alguns perguntavam como, quando e onde, e Jimmy Logan se deliciava por poder dar esta notícia.
—  Meus caros, a criatura foi encontrada no Brasil, no corpo de um humano. Minhas pesquisas apontavam para este fato já há alguns anos. O Dahakrift conseguiu progredir e tomar conta dos humanos. Tenho certeza que faz isso há pelo menos quarenta anos, mas o fato é que ele escolheu um médico e ficou com ele por quinze anos consecutivos.
—  Que provas você tem disso, Mister Logan? Estamos ansiosos para testemunhar sua completa destruição.
Esta era a voz da oposição, Mister Alan Ashley, um arquiteto britânico especializado em civilizações e construções da idade média. Todos edifícios construídos pela sua empresa ao redor da Europa reproduziam uma obra prima da antiguidade. Jimmy Logan e ele eram antipatizantes ferrenhos desde que se conheceram.
—  Mister Ashley, como sempre, creio que subestime os fatos. Obviamente o senhor também não está a par do quão forte é esta criatura, muito menos o que é necessário para destruí-la. Por fim, tenho certeza de que não conhece os mais simples motivos que nos levam à guerra contra este monstro.
—  Então, nos esclareça, Mister Logan. O que precisa para terminar o seu trabalho? – ele colocou uma ênfase proposital nas palavras indicando claramente que Jimmy Logan não dava conta sozinho de um serviço como aquele.
—  O meu trabalho, Mister Ashley, é servir a causa da CUSCON, com todos os meios que possuímos e muito mais. Se não fossem as minhas pesquisas e persistência, muitos nesta sala mal se dariam conta de que este demônio anda perto de nós – Jimmy elevou a voz e disse novamente – Um demônio! É isto que temos em mãos. Um ser que se arrasta pelos infernos e veio à terra tentar encontrar um lugar para destruir. Ele tomou pequenas criaturas, pequenos animais e foi evoluindo. Estamos diante de algo com destreza mental, que escolheu um médico com inteligência muito acima o normal e ficou com ele por anos a fio. Ele está tentando desenvolver algo... Algo muito ruim.
Seu tom de voz era macabro, e com isso conseguiu intimidar seus opositores, embora Alan Ashley sustentasse seu olhar e ainda se mostrasse arredio.
—  Meus caros, meu avô iniciou essa empreitada, ou melhor, coletou os indícios deixados por um de nossos membros que morreu nesta mesma busca. Meu avô estudou os diários deixados por ele, passou a vida pesquisando e encontrando rastros. Temos certeza de que este demônio foi o responsável por muitas guerras do nosso planeta. Ele tem a capacidade de se infiltrar nos seres humanos fracos, esses que não sabem se proteger como nós, e pior de tudo, ao encontrar um ineguale, este demônio tomará seus poderes do inferno e se tornará mais poderoso ainda! Nós temos que destruir de uma vez por todas, todos ineguales que encontrarmos na nossa frente, e prioritariamente o próprio Dahakrift!
—  E se ele foi encontrado mesmo, por que estamos aqui falando em guerra? – perguntou Alan Ashley.
—  Por que não foi destruído? – perguntou outro homem sentado à distância.
Jimmy Logan tomou mais um fôlego e passou a narrar os últimos acontecimentos dos quais fora protagonista no aeroporto de São Paulo no Brasil. Contou sobre os manuscritos que indicavam a hipnose causada no Dahakrift por objetos brilhantes e como a CUSCON havia tentado capturá-lo com a caixa de diamantes. Atribuiu o fracasso desta captura à presença de espíritos no local, atraídos pela ineguale Daisy Dias.
—  Esta mulher é tão inimiga quanto o próprio Dahakrift. Ela atrai espíritos e fala com eles. É por isso que a criatura a quer. Creio que através dela, o nosso monstro tente suplantar mais um estágio e também adquirir poderes dos espíritos.

Continua...

 

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